Copa do Mundo divide México: festa nas capitais, tiros nas vilas
Cidade do México, Guadalajara e Monterrey explodem em festa desde o início da Copa do Mundo, em 11 de junho. Mas em dezenas de vilas e cidades do interior, onde tiroteios são rotina diária, os gritos de gol mal saem de dentro de casa. O medo dos cartéis rouba até a vontade de assistir futebol.
A Copa dos dois Méxicos
- Cidades-sede celebrando3
- Policiais mobilizados nacionalmente100 mil+
- Homicídios por dia (jan-mai 2025)50,4
- Empregos perdidos em Sinaloa (2 anos)60 mil
- Jornalistas mortos em Poza Rica (2025)2
"Gosto de futebol, mas estamos nervosos"
Um produtor de limão em Michoacán, um dos estados com maior concentração de grupos criminosos disputando território, resume o clima: "Gosto muito de futebol, mas… estamos nervosos", disse à Associated Press sob anonimato por medo de represálias. Durante um jogo recente da seleção mexicana, cartéis locais lançavam explosivos de drones em um rancho próximo.
"Antigamente as pessoas se reuniam para assistir os jogos e faziam apostas. Não mais. Não há festa aqui, só exaustão", conta.
A 1.040 km ao norte, em Culiacán — capital de Sinaloa, palco de quase dois anos de guerra entre facções rivais do Cartel de Sinaloa — o cenário é parecido. Em vez de tomarem as ruas, moradores buscam cantinhos discretos, casas de amigos ou um dos poucos bares que ainda transmitem as partidas, para esquecer por algumas horas que suas vidas são moldadas pela violência.
José Miguel Taniyama, chef e dono de restaurante na cidade de 1 milhão de habitantes, esperava que a Copa reanimasse as vendas após uma crise econômica de dois anos causada pelos confrontos — conflito que fechou negócios e custou quase 60 mil empregos em Sinaloa, segundo dados oficiais. No jogo de abertura do México contra a África do Sul, apenas duas mesas estavam ocupadas quando a bola rolou. Dias depois melhorou, mas longe do esperado.
"O movimento está fraco. Tivemos algumas reservas, mas nada de capacidade cheia, e as vendas não são tão fortes quanto em eventos parecidos", diz Taniyama. E logo que a partida termina, "as pessoas correm para casa" por causa da violência.
Quando até comemorar gol é arriscado
Do outro lado do país, em Poza Rica — área no Golfo do México onde a violência de cartéis se intensificou recentemente — as ruas estavam vazias após o México enfrentar a Coreia do Norte em 18 de junho.
"Ninguém saiu para comemorar", conta Guillermo Núñez, dono de negócio de 28 anos e jogador de futebol em time local, que caminhou acompanhando uma amiga até em casa depois de assistirem juntos. As celebrações que seguiam grandes jogos desapareceram em grande parte pelo medo de sair à noite, diz, e muitas pessoas próximas estão mudando suas rotinas. Este ano, dois jornalistas foram mortos perto de sua casa. "A violência roubou até a vontade de sair e assistir futebol."
Em cidades por todo o Tamaulipas — onde operam células do Cartel do Golfo, facções de Los Zetas e o Cartel Jalisco Nova Geração — muita gente parece resignada a viver em meio à violência. Uma moradora de Miguel Alemán, pequena cidade na fronteira com o Texas, diz que as coisas estão "melhorando" porque os tiroteios não duram mais horas, apenas "um tempo". A mulher, que pediu anonimato por segurança, conta que vizinhos agora conseguem sentar na soleira das portas e conversar — algo impossível meses atrás, quando grupos criminosos sequestravam qualquer um visto nas ruas.
"Pessoas envolvidas no crime organizado sentam para assistir futebol, então as coisas se acalmam um pouco", diz Josías Ramírez, trabalhador de maquila em Matamoros, ao lado de Brownsville, Texas. Mas a realidade não muda: "O medo está sempre presente porque vivemos numa sociedade de fronteira onde crimes continuam acontecendo em plena luz do dia."
"Hoje não foi minha vez, amanhã, quem sabe?"
Mil quilômetros ao sudoeste, em Uruapan — cidade de Michoacán cujo prefeito foi assassinado há quase oito meses — centenas de jovens deixaram o medo de lado após a vitória do México sobre a Coreia do Sul e se juntaram às comemorações sob o olhar de forças de segurança.
"Achei que era perigoso por causa de tudo que está acontecendo, mas ver algumas pessoas saindo me deu confiança", diz María Luisa García, de 19 anos.
Juan Carlos Mora, produtor de frutas vermelhas em Uruapan, tem uma leitura mais dura: "Os jovens continuam se jogando em situações arriscadas… Eles sabem que eventualmente um deles vai se meter em problemas… e provavelmente vai morrer, mas eles gostam de festejar. Todo dia é a mesma coisa: hoje não foi minha vez, amanhã, quem sabe?"
Governo celebra queda nos homicídios — mas medo persiste
A presidente Claudia Sheinbaum tem dado tom positivo a tudo relacionado à Copa. Apesar da pressão dos Estados Unidos em temas econômicos e de segurança, o embaixador americano Ronald Johnson elogiou a colaboração entre as duas nações para garantir um Mundial bem-sucedido, incluindo a mobilização de mais de 100 mil agentes de segurança mexicanos pelo país.
"As pessoas estão felizes, super felizes" com a Copa, declarou Sheinbaum na semana passada. Na quarta-feira, disse que o México estava enviando ao mundo uma mensagem de "alegria, felicidade e entusiasmo" ao sediar o torneio.
O governo de Sheinbaum destaca avanços na segurança, apontando queda nos homicídios desde que assumiu em outubro de 2024. Na semana passada, divulgou dados atualizados mostrando média de 50,4 homicídios por dia de janeiro a maio — a menor taxa em uma década para esse período. Em junho, a média diária caiu para 39.
Poucos contestam que os números refletem melhora. Mas analistas notam que pessoas continuam desaparecendo e que a violência permanece aguda em várias partes do país, apesar da queda nas mortes. O medo corre fundo aqui após décadas de violência.
Vozes das zonas de guerra
Produtor de limão, Michoacán (Sob fogo de drones)
"Antigamente as pessoas se reuniam para assistir os jogos e faziam apostas. Não mais. Não há festa aqui, só exaustão."
José Miguel Taniyama, chef em Culiacán (60 mil empregos perdidos)
"O movimento está fraco. Logo que o jogo termina, as pessoas correm para casa por causa da violência."
Guillermo Núñez, Poza Rica (2 jornalistas mortos em 2025)
"A violência roubou até a vontade de sair e assistir futebol."
Juan Carlos Mora, Uruapan (Prefeito assassinado há 8 meses)
"Todo dia é a mesma coisa: hoje não foi minha vez, amanhã, quem sabe?"
Futebol como fuga — mas não como solução
Alguns torcedores reconhecem que um dos motivos para se perderem nos jogos é esquecer temporariamente as experiências mais dolorosas do país.
"Nós, mexicanos, sabemos apreciar uma vitória porque passamos por muitos eventos muito dolorosos e desastres humanitários", disse Juan Pablo de los Santos, torcedor que comemorou em uma festa com milhares de pessoas na Cidade do México após a vitória do México sobre a Coreia do Sul.
A Copa pode oferecer algumas horas de alívio. Mas quando o apito final soa, o México real — o das vilas sitiadas, dos tiroteios diários, das portas trancadas — ainda está lá esperando.
Perguntas frequentes
A violência dos cartéis realmente diminuiu no México durante a Copa?Segundo dados oficiais do governo Sheinbaum, a média de homicídios caiu para 39 por dia em junho de 2025 — a menor em uma década. Porém, analistas apontam que desaparecimentos continuam e a violência permanece intensa em estados como Sinaloa, Michoacán e Tamaulipas, onde grupos criminosos disputam território. Moradores dessas regiões relatam que o medo persiste apesar dos números.
Por que cidades como Culiacán e Uruapan não podem celebrar nas ruas?Culiacán, capital de Sinaloa, vive quase dois anos de guerra entre facções do Cartel de Sinaloa, que causaram 60 mil desaparecimentos de empregos e fechamento de negócios. Em Uruapan, Michoacán, o prefeito foi assassinado há oito meses. Tiroteios são rotina, grupos criminosos agem abertamente, e sair à noite é visto como risco de sequestro ou morte — mesmo durante a Copa.
Quantos policiais o México mobilizou para a Copa do Mundo?Mais de 100 mil agentes de segurança mexicanos foram mobilizados em todo o país para garantir a realização do torneio, segundo o embaixador americano Ronald Johnson. O esforço foi resultado de colaboração entre México e Estados Unidos, em meio a pressões diplomáticas sobre economia e segurança.
O que acontece quando o jogo acaba nessas regiões?"As pessoas correm para casa", resume o chef José Miguel Taniyama, de Culiacán. Em Poza Rica, ninguém saiu para comemorar a vitória do México. Em vilas de Michoacán, moradores evitam qualquer exposição nas ruas após o anoitecer. A exceção foi Uruapan, onde jovens celebraram sob olhar de forças de segurança — mas moradores locais veem isso como "se jogar em situações arriscadas" onde "hoje não foi minha vez, amanhã, quem sabe?".