"No coletivo, o Japão é melhor que o Brasil"
Natural de Maringá, ele enfrentou Kaká, Ronaldo e Ronaldinho pela seleção japonesa em 2006. Hoje, aos 48 anos, não tem dúvida: vai torcer contra o Brasil. E explica por quê.
A trajetória de dois mundos
- Copas disputadas pelo Japão2
- Ano de naturalização2001
- Gols que o Brasil levou na Copa 20064 x 1
- Idade ao se mudar para o Japão15 anos
- Melhor jogador da Ásia2000
- Convocados japoneses que jogam fora23
"Deixa eu torcer para o Japãozinho"
Quando Alex Santos fala do duelo entre Brasil e Japão, ele escolhe seu lado sem hesitar. "Com certeza vou torcer pelo Japão. Já tem milhões de brasileiros torcendo pelo Brasil. Deixa eu torcer para o Japãozinho." A declaração não é provocação — é coerência. Nascido em Maringá, no Paraná, ele deixou o Brasil aos 15 anos, se formou no sistema japonês, virou o melhor jogador da Ásia em 2000 e disputou duas Copas do Mundo vestindo a camisa do país que escolheu como seu.
"Foi o time que eu decidi, para mostrar que o Japão tem sim um futebol bom. A bandeira que eu escolhi," diz Alex, hoje com 48 anos. A escolha veio em dezembro de 2001, quando enfim conseguiu a naturalização depois de anos estudando e jogando no país asiático. Dois meses depois, em fevereiro de 2002, estreou pela seleção japonesa. Em junho daquele ano, disputou sua primeira Copa — em casa, no Japão e na Coreia do Sul.
Mas a experiência não foi como ele imaginava. "Eu não cheguei a aproveitar a Copa do Mundo de 2002. Porque quem joga fica muito focado na partida, no que ele tem que fazer, que ele esquece a torcida, o quanto é legal aquela motivação." A delegação ficou isolada em um hotel afastado, sem contato com torcedores, sem jornal, sem TV. "Era muito focado no dia a dia." O Japão foi eliminado nas oitavas pela Turquia. Alex esperava mais.
O dia em que deu assistência contra o Brasil
Quatro anos depois, em 2006, veio o confronto que Alex jamais esqueceria. Brasil x Japão, na fase de grupos da Copa da Alemanha. "Quando você vê Brasil em Copa fala: 'P***, vamos jogar contra os melhores do mundo'." Do outro lado, Kaká, Robinho, Ronaldinho, Ronaldo, Roberto Carlos, Cafu. Um time de lenda.
Mas Alex e seus companheiros japoneses não tinham nada a perder. "A pressão estava toda do outro lado: 'Se eles perderem estão ferrados. Mas nós podemos fazer história'." E quase fizeram. Logo no início, Alex recebeu a bola, foi para cima de Cicinho, puxou para dentro e tocou nas costas de Lúcio. Keiji Tamada chegou finalizando e abriu o placar contra Dida.
"Nossa... Caramba, foi aquele êxtase. Eu nunca tinha me arrepiado com uma assistência antes. Tinha algo por trás, porque precisávamos ganhar do Brasil. Sair ganhando deu aquele sentimento..." A frase termina com uma risada sem graça. "Depois tomamos uma p*** virada." Ronaldo (2), Juninho Pernambucano e Gilberto decretaram o 4 a 1. A seleção brasileira confirmou o favoritismo, mas Alex havia deixado sua marca — literalmente nas costas da defesa do país onde nasceu.
De ponta a lateral: a transformação por Zico
O ponta chato (Antes de 2002)
Alex sempre foi aquele ponta que ia para cima toda hora, pela esquerda. Foi assim que disputou a Copa de 2002 e construiu carreira no Shimizu S-Pulse, onde se tornou o melhor jogador do Japão em seu terceiro ano como profissional.
A conversa com o ídolo (2002-2006)
Quando Zico assumiu a seleção japonesa, chamou Alex para uma conversa: "Estou pensando em um formato de equipe e vejo você como um lateral com liberdade para ir para frente." Alex nem piscou. "Pô, quem sou eu? Se o Zico me chama e fala para eu jogar, vamo embora!" Para um flamenguista, era surreal ter o Galinho de Quintino como técnico.
O lateral ofensivo (Copa 2006)
A transformação funcionou. Em 2006, Alex já era lateral-esquerdo — mas com DNA de atacante. Foi exatamente essa combinação que gerou a assistência contra o Brasil, quando subiu, encarou Cicinho e achou o passe que nenhum lateral tradicional tentaria.
"No coletivo, é melhor que o Brasil"
Hoje, Alex não tem dúvidas sobre quem leva vantagem no jogo coletivo. "Vejo uma equipe japonesa mais preparada. Não tem todos os talentos do Brasil mas, diferente de antigamente, 23 convocados jogam fora. Tem jogador do Liverpool, do Bayern..." A evolução é clara para quem conhece o futebol japonês por dentro.
"Se o Brasil der mole, pode perder. Como perdeu no amistoso." Ele se refere à vitória japonesa por 3 a 2 em outubro do ano passado. "Ali deu para mostrar que a seleção japonesa é muito organizada, trabalha muito no coletivo. Controla o jogo, não é mais aquela correria meio que ingênua. No coletivo, é melhor que o Brasil."
A análise vem de quem conhece os dois lados. Alex chegou ao Japão aos 15 anos, vindo das categorias de base do Grêmio de Maringá, para estudar antes de se profissionalizar. Passou três anos se adaptando à cultura japonesa antes de fazer teste no Shimizu S-Pulse, em 1997. No segundo ano, virou titular desbancando jogadores de seleção que ganhavam muito mais. No terceiro ano, foi eleito o melhor jogador do Japão — numa época em que o campeonato tinha Dunga, Leonardo, Jorginho e Mazinho.
"O Brasil é favorito, mas o Japão pode surpreender," resume Alex. Ele sabe do que está falando. Em 2006, quando o placar marcou 1 a 0 para o Japão, o improvável estava acontecendo. Durou pouco, mas aconteceu. E desta vez? "Por um lado é meio triste, mas quem sabe na próxima Copa o Brasil volte com tudo."
A jornada de dois continentes
- 1991 Deixa Maringá aos 15 anos — Convite para estudar no Japão antes de se profissionalizar no futebol
- 1997 Primeiro contrato profissional — Assina com o Shimizu S-Pulse após três anos estudando e se adaptando
- 1999 Melhor jogador do Japão — Reconhecimento nacional em época de brasileiros estrelados no campeonato
- 2000 Melhor jogador da Ásia — Consolidação como um dos principais atletas do continente
- Dez 2001 Naturalização japonesa — Torna-se oficialmente cidadão japonês após anos no país
- Fev 2002 Estreia pela seleção — Primeiros jogos com a camisa do Japão, dois meses após naturalização
- Jun 2002 Primeira Copa do Mundo — Disputa o Mundial em casa como ponta, eliminado nas oitavas pela Turquia
- 2002-2006 Era Zico — Transformado de ponta em lateral-esquerdo pelo técnico brasileiro
- 2006 Brasil 4 x 1 Japão — Dá assistência para gol japonês contra o país onde nasceu, na Copa da Alemanha
- 2014 Aposentadoria — Encerra carreira após mais de 15 anos como profissional no Japão
- 2020 CEO do Galo Maringá — Retorna ao Brasil e assume gestão do clube paranaense
De volta a Maringá
Aposentado há 10 anos, Alex voltou para a cidade onde nasceu. Em Maringá, fundou o Instituto Alex Santos, projeto social para crianças que sonham em jogar futebol — exatamente o que ele foi um dia. Desde 2020, também é CEO do Galo Maringá, equipe que disputou a primeira divisão do Campeonato Paranaense em 2026.
Mas quando Brasil e Japão se enfrentarem, ele sabe de que lado vai estar. "Deixa eu torcer para o Japãozinho." É a bandeira que escolheu. A mesma que o levou a dar uma assistência contra Lúcio e Dida, a enfrentar Kaká e Ronaldo, a viver uma Copa do Mundo dentro de um hotel isolado focado apenas no jogo. A mesma que agora o faz acreditar: no coletivo, o Japão pode surpreender de novo.
Perguntas frequentes
Alex Santos nasceu no Brasil ou no Japão?Alex Santos é natural de Maringá, no Paraná, Brasil. Mudou-se para o Japão aos 15 anos para estudar e depois se profissionalizar no futebol. Foi naturalizado japonês em dezembro de 2001.
Quantas Copas do Mundo Alex Santos disputou?Alex disputou duas Copas do Mundo pela seleção japonesa: em 2002 (no Japão e Coreia do Sul) e em 2006 (na Alemanha). Na primeira, atuou como ponta; na segunda, já transformado em lateral-esquerdo por Zico.
O que aconteceu no jogo Brasil x Japão em 2006?O Japão saiu na frente com gol de Keiji Tamada após assistência de Alex Santos, que driblou Cicinho e tocou nas costas de Lúcio. O Brasil virou o jogo e venceu por 4 a 1, com dois gols de Ronaldo, um de Juninho Pernambucano e outro de Gilberto.
Por que Alex Santos escolheu jogar pelo Japão em vez do Brasil?Alex se formou no sistema japonês após chegar aos 15 anos, construiu toda sua carreira profissional no país e foi reconhecido como melhor jogador da Ásia em 2000. A naturalização em 2001 foi consequência natural de sua trajetória. Ele define: "Foi o time que eu decidi, para mostrar que o Japão tem sim um futebol bom. A bandeira que eu escolhi."